Impossível falar sobre todas as coisas. Mas agora, vestida de improvisação já nem queria falar sobre mais nada. Definir nada. Entender nada. Queria mesmo que ela pegasse minha mão súbitamente, surpreendendo-me ao tocar-me. Queria mesmo que ela beijasse-me no ato de infringir o espaço entre nós, deixando-me pasma com a situação despreparada. Queria ouvir meu telefone tocar no ponto mais alto de meu trabalho extressante, apenas para ouvir que ela amava meu par de meias sujas, esquecidas (ou escondidos!) debaixo da cama, revelando minha preguiça infantil. Eu anseio, por novas expectativas. Ânseio não saber o que irá acontecer e exibir meu temor à passos desprevinidos. Justo eu, fria, calculista, dona da vida mais rotineira que ja existiu. Café, almoço, janta. Acordar, dormir. Deveres, obrigações. Tudo milimetricamente planejado, confinado, espantosamente arquitetado para uma vida robótica, digna de momentos planejados e sem mínimos erros.. Ou melhor, sem mínimas emoções. Eu queria ser puxada pela mão, ultrapassar os limites de nossos projetos. Desinibir-me de cada passo previsto, me livrar da previsão do tempo, da premonição, do destino, do pressentimento... Queria livrar-me de cada um dos arranjos arranjados e nada arrojados. Queria ousar, mudar o compromisso de ser igual para sempre. Queria cometer a quase loucura de fazer o tempo passar mais depressa no auge de coisas novas. Novas descobertas. Novas ideias. Novos jeitos de fazer antigas coisas. Eu queria despojar-me de minhas prisões. Acabar-me na tentativa de começar tudo outra vez. Conheçer o infinito e redefinir a eternidade. Ser pega de surpresa, e surpreender a vida, já que ela está acomodada em apenas nos levar. Nos levar.. e fazer com que a gente a leve. Com a barriga, nas coxas, do jeito que der. Um prato de comida, a mesa do café, as abrigações do trabalho, o vai e vem dos carros da avenida principal. Mas não, a rotina já não teria a serventia que sempre teve, e eu estava farta de conhecer sempre o que já conheço. De controlar as coisas no limite de minha vontade. Novas expectativas, novos olhos, novo foco. Eu apenas queria deixar a monotonia para trás, ou então apenas convidá-la para ir comigo, conhecer o lado maravilhoso da vida, onde ao invés de razões previsíveis há emoções realmente intensas.